Mas é uma gata com graves problemas de identidade: hesita entre o miar e o ladrar, dado que as únicas amigas peludas e de quatro patas definitivamente ladram. Corre atrás das cadelas, caça-as, placa-as nas curvas e rebola-se com elas em animada brincadeira. Pede para comer, para beber, tomar banho no lavatório sozinha e exige mimos, saltando pura e simplesmente para o colo, ou para o pescoço, onde se mantém firme como estola ronrante. Pela manhã 5 minutos de atenção têm que lhe ser prestados ou então a alternativa é o miar ir subindo de tom e estarmos sempre a tropeçar nela.
Passeia-se pela loja e dá as suas espreitadelas na rua. Nega-se a fugir e quando se afasta mais do que 10 metros começa a pedir ajuda. No atelier, entre tintas e pincéis, deita-se em cima da mesa e, não raras vezes, a pelagem adquire tonalidades diversas. Há sempre um bigode pintado, ou uma orelha. Parece uma sombra, um cão, segue as pessoas e fica ao pé, responde ao assobio e vem a correr juntamente com os cães.
Definitivamente sou dona de cães, não de gatos, embora os ache extremamente bonitos, mas a estarolice dos cães é-me mais próxima. Tenho uma lista já com dois algarismos de cães abandonados... e a gata. Um gato-cão ou meio cão, nem sei. Mas aqui a escrever vou espreitando-a deitada na cama que tem em cima da minha secretária e sorrio... dorme de barriga para o ar, numa paz que só crianças e bichos conseguem atingir.
Gosto de animais. Talvez por isso tenha a coragem de apanhar cães que deambulam nas auto-estradas ou que estão em bermas cobertos de sangue. Não sou heroína, sou uma pessoa cívica que apanha os "restos" que os outros se limitaram a largar por aí sem qualquer peso na consciência. Neste aspecto somos um país extremamente doente e vil.